POR LLOPES - Graduada em Filosofia / Pós em Ensino de Filo. e Gestão Escolar.
No século XVIII, o sujeito ao nascer já era privado de sua liberdade. Suas pernas eram esticadas, seus braços presos rente ao corpo sua cabeça imobilizada por faixas e panos, eram os famosos cueiros. “seu primeiro sentimento é o de dor e de sofrimento: eles só encontram empecilhos a todos os movimentos que precisam fazer. Mais infelizes do que um criminoso algemado fazem esforços inúteis, ficam irritados, gritam. Seus primeiros sons, ao que se diz, são choros (...). Os primeiros presentes que lhes dão são correntes, os tratamentos, torturas. Não possuindo nada livre além da voz.” (Jean Jacques Rousseau. Textos filosóficos, Ed. Paz e Terra - Coleções Leitura, São Paulo 2002 - pág.99) Proibido de movimentar-se, de esticar seu corpo, a criança crescia com deformações físicas, isso quando sobreviviam. Muitas morreram quando com o peito fortemente comprimido, impossibilitando a circulação sangüínea; enroladas no cueiro eram facilmente transportadas e empendoadas em pregos como sacolas, pela suas amas que a deixavam ali sem nenhuma preocupação com seus gritos e rostos arroxeados. A morte seria mera fatalidade, já que não tinha fraturas nos membros sua “tão cuidadosa e amorosa” ama não era culpada. Enquanto isso, suas mães ficavam a gozar dos prazeres da sociedade. E assim, milhares de sujeitos foram criados; pois nos cueiros as crianças não poderiam ser colocadas em situação perigosa e seus membros cresceriam; crianças soltas era um perigo!
Mudou a forma de aprisionar a criança ao nascer, não sei qual a pior; antigamente a prisão era mais física, atualmente é mais psicológica. As crianças ao invés de estarem em cueiros encontram-se envolvidas por crenças que a fazem perder a autenticidade individual. A mãe é a primeira a favorecer esta perda, com cantigas de ninar aonde “o bicho vem te pegar” ou “papai do céu vai te abençoar”, faz a iniciação do processo de alienação e domínio capitalista. O grande problema é o processo introdutório de crenças religiosas na consciência do sujeito. Ao nascer à criança está submetida automaticamente pelo primeiro Aparelho Ideológico do Estado, a religião. Os pais começam a passar para a criança deste muito cedo a idéia de Deus. Um Deus bom, onipresente, onipotente, onisciente e transcendental; crescer acreditando em uma entidade superior que vigia e castiga algo que não pode ser visto, mas tem que ser sentido, pois justifica a vida humana. Parece-me confuso para a criança que abstrai concretamente ter que acreditar em algo que não vê, não sente e que esta fora de seu alcance, porém acredita por que seus pais, os primeiros que tem que passar segurança e proteção, também acredita. Sem muito indagar se submete a esta crença. Esta criança se desenvolve e passa por todo o processo natural da vida firmada em doutrinas religiosas; o círculo vicioso continua normalmente, pois ele se casa e inicia o mesmo processo que foi submetido, e assim a linha de montagem de cordeiros ou humanóides prossegue sem cessar. Mas, por que o sujeito tem este comportamento? Por que o sujeito recorre ao divino quando está passando por problemas do mundo? Qual é o verdadeiro sentido da religião no sistema capitalista? Por qual motivo a religião é um Aparelho Ideológico de Estado que exerce tanta influência? Por que os indivíduos procuram refúgio na instituição da Igreja?
Segundo Freud a religião é a “regressão do adulto ao mundo ideal da criança. Ao mesmo tempo, a criança sabe que precisa do pai. Com isso constitui-se o conflito entre amor e ódio, afeição e hostilidade, admiração e medo do pai. Tais desejos serão exilados para o porão do subconsciente. E a criança aprende o que se proíbe e o que se permite em seu meio cultural, apropriando-se internamente desses preceitos e dessas proibições. Assim forma-se o superego. Este é um fator cultural transmitido através do pai e atua na criança e no adulto como censura.” (Urbano Zilles. Filosofia da Religião, Ed. Paulus, São Paulo, 1991 – pág. 145). O pai representa um dominador que impõe normas e leis ao filho, este por sua vez sente ódio, mas mesmo assim o ama incondicionalmente. A religião então seria apenas esta transferência de dominador, do pai físico para um pai transcendente.
Freud acreditava que a religião teve início com o homem primitivo, que antigamente se dividiam em clã e tinham um animal como protetor da tribo; com o decorrer do tempo o homem passou a comê-lo e transferiu o sentimento de proteção a enormes esculturas de madeiras, nasce então o totem que passa a ser o deus do clã. O homem reconhece a obrigação da exogamia do totem e evitam as lutas entre eles, na conquista da fêmea por exemplo. A renúncia do comportamento instintivo do homem da inicio a organização social; o sentimento de culpa deu origem à religião.
Feuerbach defende a idéia que o homem criou Deus por transferência, na verdade o sujeito deseja ser eterno onipresente e onipotente, como não há esta possibilidade criou uma entidade que se atribui todos os adjetivos que almejava. Deus na verdade é o próprio homem, pois não existe fora dele. “Os símbolos religiosos não são vazios, nem se referem a Deus, mas ao próprio homem. Religião é antropologia. Tudo o que o homem fala acerca de Deus, através da linguagem religiosa, nada mais é do que confissão de seus desejos, projetos e aspirações. Por isso precisamos amar não a deus, mas ao homem: crer não em Deus, mas no homem; interessar-nos não pelo além, mas pelo aquém.” (Urbano Zilles. Filosofia da Religião, Ed. Paulus, São Paulo, 1991 – pág. 112).
Já para Marx, a Religião é o “ópio do povo”. A religião tem a função de anestesiar o homem, transformá-lo em sujeito passivo diante os poderes repressores do Estado. Aceitar e conforma-se com as condições sociais, pois tudo é e acontece como Deus deseja. A Religião tem a função dá esta sensação ilusória de liberdade espiritual, enquanto o povo encontra-se algemado pelo poder de alienação do sistema capitalista.
Como estruturalista, Michel Foucault acredita que o poder capitalista burguês é algo físico e que os hospitais, as escolas, a família são regimes disciplinares indispensáveis para a manutenção da estrutura social. Foucault alerta também para a suposição da existência de um sujeito humano, “antes de colocar a questão do corpo, dos efeitos do poder sobre ele. Pois o que me incomoda nestas análises que privilegiam a ideologia é que sempre se supõe um sujeito humano, cujo modelo foi fornecido pela filosofia clássica, que seria dotado de uma consciência de que o poder viria se apoderar.” (Michel Foucault. Microfísica do Poder, 11ª reimpressão, pág.148).
“Somos o Rebanho de Deus”, dizem os padres e pastores, cordeirinhos medrosos que apenas obedecem. A religião é um aparelho ideológico que atinge a todos, letrados e analfabetos; e é covarde pois subtrai a coragem e a possibilidade de revolução do indivíduo quando ele ainda é apenas um bebê. “Somos filhos de Deus”, não por opção, mas por oposição do sistema que almeja operários sem ação; sujeitos sem autonomia; A religião produz ideologias para modelar o comportamento do sujeito, enquanto isso a família faz seu papel passando em geração em geração estas ideologias. Devido isso, acreditamos que a religião, a fé no subjetivo, seja mais eficiente que a escola, pois ele é o primeiro que a sujeito tem contato e ainda são passados pelos pais, aqueles que a criança tem tanta confia; confiança esta que será transferida para o divino quando adulto.
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